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09
Ago24

Os consumidores com mais conhecimentos financeiros ajustam menos os seus planos de consumo perante as expetativas de inflação

A importância da literacia financeira

João Pires autor

Nos dias de hoje, onde a incerteza económica é uma constante, a literacia financeira tem vindo a assumir um papel crucial na forma como os consumidores gerem as suas finanças. Um recente estudo publicado pela Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal revelou uma correlação significativa entre o conhecimento financeiro e a capacidade dos consumidores de ajustar os seus planos de consumo em resposta às expetativas de inflação.

literacia financeira

3 minutos de leitura

 

Os consumidores que possuem uma maior compreensão dos conceitos financeiros tendem a ser menos reativos quando confrontados com as oscilações das expetativas de inflação. Esta descoberta é particularmente relevante, uma vez que a inflação tem um impacto direto no poder de compra e nas decisões de consumo. Enquanto muitos consumidores podem fazer ajustes rápidos nas suas despesas face a previsões de aumento de preços, aqueles com uma sólida formação financeira são mais propensos a analisar a situação de forma mais calma e estratégica.

 

Um inquérito realizado a nível europeu revelou que os indivíduos com um conhecimento mais profundo sobre finanças pessoais estão mais bem preparados para lidar com a incerteza económica, conseguindo assim tomar decisões orientadas e fundamentadas. Esta capacidade permite-lhes evitar decisões impulsivas que podem levar a dificuldades financeiras a longo prazo, como o endividamento excessivo.

 

A literacia financeira não se limita apenas à gestão do consumo; engloba também a compreensão de produtos financeiros, poupança para o futuro, e investimentos. Aqueles que se dedicam a educar-se sobre finanças pessoais estão mais capacitados para construir um planeamento financeiro sólido, que considera não apenas a inflação, mas também outros fatores económicos e sociais.

 

Além disso, o estudo destaca a necessidade de promover a educação financeira desde tenra idade. Investir na capacidade financeira dos jovens poderá não só equipá-los com as ferramentas necessárias para uma vida financeira saudável, mas também contribuir para uma sociedade mais informada e resiliente às flutuações económicas.

 

Em conclusão, a literacia financeira emerge como um pilar fundamental para o fortalecimento da capacidade dos consumidores de enfrentar a volatilidade do mercado. Os resultados do estudo indicam que uma maior educação financeira poderá proporcionar não apenas benefícios individuais, mas também contribuições significativas para a estabilidade económica de uma sociedade. Sem dúvida, é uma chamada à ação para que se intensifiquem os esforços na formação financeira da população activa, mas também para as crianças e para os reformados e pensionistas.

 

Nesse sentido, a entidade patronal possui uma responsabilidade social fundamental na promoção da literacia financeira entre os seus trabalhadores, uma vez que este conhecimento é crucial para a gestão eficaz das finanças pessoais. Ao proporcionar formação nesta área, as empresas não só capacitam os seus colaboradores a tomarem decisões financeiras mais informadas, mas também contribuem para o bem-estar geral e a estabilidade económica da sua força de trabalho. Investir na literacia financeira é, portanto, uma estratégia vantajosa que pode resultar em maior produtividade e satisfação no trabalho, uma vez que os trabalhadores se sentirão mais seguros e preparados para enfrentar as incertezas económicas. Além disso, esta prática pode reforçar a cultura de responsabilidade e cuidado social da entidade patronal, elevando a sua reputação e atraindo talentos que valorizam um ambiente de trabalho que investe no desenvolvimento integral dos seus colaboradores.

 

João Paulo Pires

08
Ago24

DA JANELA E, Reforma Agrária (1977)

a falta da reforma agrária e a situação difícil em que vivem, com dificuldades para encontrar trabal

João Pires autor

DA JANELA E

reforma-agraria-conversa-trabalhadores-vinicultore

 

Resumo:

O texto é um relato de uma conversa entre quatro trabalhadores vinicultores, Raul, Carlos, Abílio e Zé Pedro, na região do Douro. Eles discutem sobre a falta da reforma agrária e a situação difícil em que vivem, com dificuldades para encontrar trabalho e subsistência. Eles criticam a política governamental e a falta de apoio aos pequenos lavradores e trabalhadores assalariados. Além disso, eles falam sobre as dificuldades para aceder a subsídios, assistência médica e educação na região. O texto também destaca a falta de investimentos na infraestrutura da região e a priorização das grandes empresas urbanas em detrimento das áreas rurais.

 

Texto completo:

Num determinado dia do mês de Outubro deste ano e tendo como palco a região duriense entretive-me durante alguns momentos a ouvir 4 Trabalhadores vinicultores precisamente quando estes cumpriam mais um dia de trabalho na época das vindimas.

 

Seriam 11 horas quando se concluiu a «4ª vez» e já só faltavam sete para o dia.

 

Despejado o cesto, trouxa ao ombro, carapuço pendurado o Raul de 56 anos tinha direito a uma reconfortante pausa de 5 minutos, para dosear o esforço e aguentar sem desfalecimento o resto da jorna. Todavia a sua missão era outra. Confrontado com o facto de na terra não haver suficiente mão-de-obra (já que os movimentos revolucionários das cidades não se solidarizam com os durienses) viu-se na emergência de suprir a falta de um homem; com pouca força, mas cheio de coragem e determinação. For então que, nesse lapso de tem po entre o despejar de um e a recepção de outro cesto o bom Raul, sem cultura livresca para além da Instrução primária tal como os demais começou por dizer:

 

- Mas quem se atreverá, neste país à deriva, de negar legitimidade à aspiração dos Trabalhadores desta região, quer trabalhem por sua ou por conta de outrém, de serem considerados cidadãos portugueses de parte inteira.

 

Oh, homem, nascemos na lama, e nela havemos de morrer! disse o Salvador. Ganhou fôlego o Raul para, de seguida voltar com esta:

 

- Não, meu amigo ou o abandono a que votaram os desprotegidos desta região atinge o seu limite ou o nosso suor ao longo dos 365 dias transforma-se no rejeitar firme de uma situação a que os responsáveis viram as costas.

- Se calhar você quer práqui a «Reforma Agrária»? interveio o Carlos

 

- Não troces Carlos. Nós precisávamos efectivamente de uma autêntica Reforma Agrária para esta região demarcada do Douro. Feita por indivíduos tecnicamente capazes, tendo em conta números reais e que a todos nós conviesse e convencesse Não é preciso uma Reforma Agrária apenas defendida pelos políticos, mas sim uma transformação profunda desta situação feita connosco para bem do país

Vê-se a sangria de «braços válidos» que emigrou para França, Bélgica, Luxemburgo e restantes países da Europa, que deixou apenas aqui meia dúzia de velhos e alguns rapazes que por aqui andam até qualquer dia.

 

Repara na dificuldade que os sócios da Cooperativa ainda sentem quer pelos atrasos nas liquidações das «novidades» já colhidas há 2 anos, quer em financiamentos para instalações indispensáveis, a taxas de juro favoráveis que demonstrassem o interesse dos governantes pelo sacrifício que pequenos lavradores como eu e trabalhadores assalariados como vós aqui suportamos dia-a-dia.

 

- Mas veja o Raul, que o Abílio Ranhau tem 70 anos toda a vida trabalhou na vinha para sustento dos seus 8 filhos toda a vida viveu em dificuldades e agora, porque não descontou 5 anos para a Casa do Povo não recebe um «chavo» da Previdência e mesmo sem mulher e com os filhos em Lisboa, anda aí como um farrapo cheio de reumatismo com fome que a todos nós mete dó.

 

Ora a Reforma Agrária devia ter em conta antes de tudo, estes casos. Porque o que mais interessa aos Trabalhadores não é o plano da Reforma Agrária, mas sim a prática que tivesse em conta os desfavorecidos desta zona abandonada. Não acha que devia ser assim, Raul? opinou o Zé Pedro.

 

- Ah, mas esqueceste-te de outra coisa. Então os subsídios por doença para as verdadeiras «baixas»? A assistência médica a pessoas de lugares distantes da Casa do Povo mais de 10 km? Sim que para se trabalhar com rendimentos devíamos ter a certeza de que a nossa saúde estava «okay»! Isto também era urgente não acham? Concluiu.

 

- Pois é amigos tudo isso e muito mais é que dá razão ao nosso direito de não aguentarmos o abandono actual por muito tempo. Vejam vocês que os caminhos apesar de estreitos, por sermos aldeia, são lamacentos porque as águas selvagens deterioram as paredes das vinhas e mesmo das casas de habitação. Só agora se vê possibilidade de termos algumas lâmpadas acesas durante a noite para bem comum, porque de outro modo não podíamos sair de casa durante a noite. Tem escola e com fontenário sem água, caminhos estreitos e quase intransitáveis, pagamentos atrasados nas Cooperativas e ser apenas fruto da teimosia dos lavradores a manutenção do cooperativismo não vos parece que são muitas coisas juntas de pouco custo que a nós faz muita falta? disse o Raul.

 

Entretanto novo cesto de 60 kg de uvas cai nas costas destes 4 homens que encosta acima, vão arrastando o «stock» suficiente para encher dois contentores de 6 000 kg de uvas, tal é a colheita do pequeno lavrador. Sr. Raul, da qual vai tirar o seu sustento depois das necessárias despesas para vingar a «novidade» durante todo o ano.

 

E quantas vezes o míldio, as chuvas torrenciais e os ventos roubam o pouco julgado muito bom deixando assim o lavrador sem meios para autosustentação da sua casa. Que seguro de colheitas existe? Que fomento agrário?

 

É fácil pois, concluir o panorama económico-social da região duriense.

 

Numa fase da nossa História em que as transformações económicas geram esquemas diferentes nos níveis de vida dos povos, são as regiões isoladas das grandes cidades as que mais traumatizadas se encontram 3 anos e meio depois do 25 de Abril de 74.

 

Aos órgãos municipais são dadas verbas tardiamente e a conta gotas.

 

Entretanto empresas inviáveis das cinturas industriais e ainda intervencionadas, imprensa estatizada só acessível aos grandes centros e (apenas) Cooperativas e UCPs do Alentejo consomem milhões de contos que só se conseguem com os empréstimos externos, ajudas várias e aumentos de Impostos directos e indirectos.

 

Como Trabalhador bancário tinha o dever de escrever estas linhas. De contar o que ouvi entre Trabalhadores, da minha terra, no nosso pais.

 

Num jornal de Trabalhadores é mister denunciar a realidade vivida fora do Porto, onde muitos de nós nascemos.

 

Quantas regiões terão os mesmos problemas? E quantos Trabalhadores se encontram assim desprotegidos? Será justo? Meditem os colegas.

 

Jerónimo Pereira sócio 10238

 

fonte: pág. 4, n.º 33, Nova Série OUTUBRO / NOVEMBRO / DEZEMBRO / 77, Boletim do Sindicato dos Bancários do Norte, A Nortada

27
Jun24

UM TIPO DE SINDICALISMO (1977)

o Congresso de Todos os Sindicatos não trouxe divisionismo ou reformismo, mas sim uma mudança de sig

João Pires autor

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Resumo:

O autor afirma que o Congresso de Todos os Sindicatos não trouxe divisionismo ou reformismo, mas sim uma mudança de sigla da Intersindical Central Única para a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses/Intersindical Nacional (CGTP/IN). É necessário definir claramente o tipo de sindicalismo a ser implantado em Portugal, pois os trabalhadores precisam de saber para onde o sindicalismo os leva e o governo precisa de interlocutores válidos e representativos.

O autor apresenta um projeto sindical que visa estabelecer uma associação de trabalhadores livre, independente, estável e democrática, com a finalidade de defender os direitos e interesses dos trabalhadores. Destaca a importância da cooperação e solidariedade entre os trabalhadores, bem como a necessidade de formação técnica e profissional para a autogestão.

O autor também destaca a importância do sindicato em relação ao Estado e ao patronato, defendendo que o sindicato deve ser independente e não se confundir com a acção política partidária. O autor também destaca a importância da unidade e coesão dos trabalhadores, bem como a necessidade de relações internacionais e cooperação com organizações políticas.

Finalmente, o autor conclui que é necessário organizar os sindicatos que estão à deriva para que possam construir um sindicalismo sério e criar uma sociedade socialista em Portugal.

 

Texto completo

"Enganaram-se todos aqueles que pensavam que o «Congresso de todos os Sindicatos» viria trazer divisionismo ou reformismo".

 

De facto, a alteração verificada no Movimento Sindical Português foi a mudança de sigla que o «Congresso de todos os Sindicatos» trouxe à Intersindical Central Única para Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses/Intersindical Nacional.

 

Por muita boa vontade que se tenha, temos todos que admitir que é insuficiente esta alteração. E quanto mais tarde se chegar a este consenso pior. Já o afirmei e repito-o, é necessário definir-se clara e objectivamente o tipo de Sindicalismo a instaurar em Portugal.

 

Isto porque os trabalhadores portugueses têm necessidade de saber para onde os leva o sindicalismo a que dão a sua adesão, e ainda, por outro lado, o Governo tem necessidade de ter interlocutores válidos e representativos de todos os trabalhadores, e ainda porque é necessário que o patronato encontre pela frente a força da solidariedade operária traduzida numa organização sindical estável, independente, democrática e forte.

 

Nesta perspectiva torna-se necessário a definição dum projecto sindical que se enquadre e defenda tudo aquilo que a Constituição consagra como direitos e garantias das classes trabalhadoras.

 

Longe de ter como objectivo confundir os trabalhadores portugueses ou contribuir para criar dificuldades a quem quer que seja, ou ainda para aumentar o divisionismo, longe de tudo isto, mas antes pelo contrário, numa tentativa de chamar a atenção de todos aqueles que optaram pelo absentismo sindical e de algum modo mobilizar todos aqueles que se encontram numa posição passiva e de desencanto, para a reflexão sobre um tipo de sindicalismo possível a praticar entre nós, vou tentar explanar algumas ideias do sindicalismo que defendo.

 

A experiência histórica demonstra que os trabalhadores não devem entregar nas mãos do poder político - mesmo quando este se arvore em representante dos próprios trabalhadores - a construção do seu próprio futuro enquanto classe trabalhadora e, portanto, agente de produção de toda a riqueza Nacional.

 

Na luta a empreender, teremos sempre presente que as conquistas quotidianas não serão um fim em si mesmas, mas sim um meio que nos permitirá consolidar o avanço, fase por fase, numa dialéctica constante entre forças antagónicas, em ordem à instauração do socialismo em Portugal.

 

Desta forma os objectivos a definir e a defender, não serão objectivos abstractos que nos conduzem a construções ideológicas e não menos abstractos do poder, mas sim objectivos concretos que através duma metodologia pragmática coloquem os trabalhadores no eixo motor da construção da sociedade do futuro, onde a exploração não tenha mais lugar, as relações de trabalho assentem na força do trabalho e não no poder do capital e dos pгоprietários dos meios de produção, onde os trabalhadores encontrem as condições necessárias à sua realização e libertação totais o que de plena garantia, liberdade a solidariedade humanas.

 

É nesta perspectiva que se deve elaborar as ideias mestras dum projecto sindical que deverá ser um factor de união entre todos os trabalhadores que desejam ver em Portugal o Sindicato Democrático Livre e Independente.

 

Não visando, enquanto sindicato, a conquista do poder político, a acção sindical a desenvolver não se deve confundir com qualquer acção política partidária, colocando-se acima e para além desta. Isto determina a necessidade dum projecto sócio-político próprio onde os sindicatos defendam reivindiquem a função de representação e defesa dos interesses dos trabalhadores contra tudo e contra todos; patronato, poderes públicos ou qualquer grupo de pressão, político ou económico que pretenda dominá-los, ou dirigi-los ou explorá-los.

 

Uma pergunta que se impõe:

 

O QUE É ENTÃO UM SINDICATO?

 

Um sindicato é uma associação de trabalhadores, Livre, Independente, Estável e Democrática, solidamente implantado nos locais de trabalho através dos seus militantes e delegados sindicais e que abrange todos os trabalhadores e trabalhadoras de todas as categorias independentemente da sua ideologia política, raça ou sexo.

 

Será assim um Sindicato da grande massa dos trabalhadores que além de contribuírem com a quotização, influenciarão activamente com as suas ideias, decisões e асção.

 

Será uma associação que se deseja englobe todos os trabalhadores por ramo de actividade ou indústria, isto é um sindicato vertical, que considero a melhor maneira de fazer face tanto ao patronato capitalista como a qualquer outro centro de poder ou grupo de pressão.

 

LIVRE, porque a liberdade para mim é entendida, como a expressão do livre exercício de decisão, acção e organização sindicais, sem qualquer limitação institucional ou ideológica. O livre exercício tem o sentido da unidade como factor de força e eficácia. Só democrática e livremente unidos os trabalhadores poderão garantir a construção duma sociedade justa e democrática.

 

A liberdade assim entendida exclui por um lado o pluralismo sindical (sindicatos paralelos ou politicamente partidários) porque divisionistas e enfraquecedores da acção sindical contra o capitalismo, por outro lado a unicidade imposta por lei porque condicionante da liberdade dos trabalhadores e fruto de intervenção estatal numa organização que só aos trabalhadores respeita.

 

A liberdade e unidade sindical exprime por si própria o alto nível de consciência, coesão e solidariedade porque é fruto da vontade dos trabalhadores e bem assim a Constituição Portuguesa o define no Artigo 57.º (Liberdade Sindical).

 

  1. É reconhecida aos trabalhadores a liberdade sindical, condição e garantia da construção da sua unidade para defesa dos seus direitos e interesses.
  2. O exercício da liberdade sindical é garantido aos trabalhadores, sem qualquer discriminação, designadamente:

 

  1. a) A liberdade de constituição de associações sindicais a todos os níveis;

 

  1. b) A liberdade de inscrição, não podendo nenhum trabalhador ser obrigado a pagar quotizações para sindicato em que não esteja inscrito:

 

  1. c) A liberdade de organização a regulamentação interna das associações sindicais;

 

  1. d) O direito de exercício de actividade sindical na empresa.

 

  1. As associações sindicais devem reger-se pelos princípios da organização e da gestão democráticas, baseados na eleição periódica e por escrutínio secreto dos órgãos dirigentes, sem sujeição a qual quer autorização ou homologação, e assentes na participação activa dos trabalhadores em todos os aspectos da actividade sindical.

 

  1. As associações sindicais são independentes do patronato, do Estado, das confissões religiosas, dos partidos e outras associações políticas, devendo a lei estabelecer as garantias adequadas dessa independência, fundamento da unidade das classes trabalhadoras.

 

  1. A fim de assegurar a unidade e o diálogo das diversas correntes sindicais eventualmente existentes, é garantido aos trabalhadores o exercício do direito de tendência dentro dos sindicatos, nos casos e nas formas em que tal direito for estatutariamente estabelecido.

 

  1. As associações sindicais têm o direito de estabelecer relações ou filiar-se em organizações sindicais internacionais.

 

INDEPENDENTE porque esta se caracteriza duma forma especial pela autonomia com que os trabalhadores nas suas organizações sindicais elaboram as análises sócio-políticas das situações de que são protagonistas, decidem da estratégia de acção a adoptar, constroem o projecto da sociedade do futuro em que desejam viver e resolvem das etapas a percorrer, tendo em vista esse objectivo.

 

Esta independência será definida perante o Estado, partidos políticos, grupos de pressão ideológicos, económicos ou outros (Ponto 4 do artigo 57.°).

 

ESTÁVEL E DEMOCRÁTICO, um sindicato será Estável e Democrático, quando a sua organização e estrutura lhe permita ser eficaz e respeite a vontade dos trabalhadores.

 

A democracia interna do sindicato pressupõe a prática da liberdade e da representatividade na organização, na direcção e na acção sindicais excluindo formas autoritárias da prática do poder.

 

Para mim a estrutura que proponho conduz a uma dinâmica sindical assente nos militantes, delegados sindicais e comissões de trabalhadores.

 

Para além da direcção serão institucionalizadas as comissões coordenadoras dos delegados sindicais, as comissões de delegados sindicais bem como as comissões de trabalhadores relações recíprocas.

 

Artigo 55.º (Comissões de trabalhadores)

 

  1. É direito dos trabalhadores criarem comissões de trabalhadores para defesa dos seus interesses e intervenção democrática na vida da empresa, visando o reforço da unidade das classes trabalhadoras e a sua mobilização para o processo revolucionário de construção do poder democrático dos trabalhadores.

 

  1. As comissões são eleitas em plenários de trabalhadores por voto directo e secreto.

 

  1. O estatuto das comissões deve ser aprovado em plenário de trabalhadores.

 

  1. Os membros das comissões gozam da protecção legal reconhecida aos delegados sindicais.

 

  1. Podem ser criadas comissões coordenadoras para melhor intervenção na reestruturação económica e por forma a garantir os interesses dos trabalhadores.

 

Artigo 56.º (Direitos das comissões de trabalhadores)

 

Constituem direitos das comissões de trabalhadores:

  1. a) Receber todas as informações necessárias ao exercício da sua actividade;

 

  1. b) Exercer o controlo de gestão nas empresas;

 

  1. c) Intervir na reorganização unidades produtivas;

 

  1. d) Participar na elaboração da legislação do trabalho e dos planos económico-sociais que contemplem o respectivo sector.

 

Será construído um Secretariado Executivo de apoio à Direcção e criado um Secretariado Técnico que englobará e coordenará a acção dos grupos de trabalho.

 

Desta forma se procura institucionalizar a democracia interna no sindicato e dotá-la de órgãos que permitam colocar os responsáveis permanentemente aptos a defender e promover eficazmente os interesses dos trabalhadores onde quer que estejam em jogo (Ponto 3. do Artigo 57.º),

 

Sendo assim:

 

QUE OBJECTIVOS LHE FIXAMOS?

 

A - Democracia Económica e Social

 

O objectivo do Sindicato é para mim o estabelecimento duma Democracia Económica e Social com a consequente abolição do sistema capitalista e que seja o garante da Democracia Política

 

Para tal se defende:

 

- O primado do social sobre o económico e do trabalho sobre o capital;

- O primado do interesse colectivo sobre o interesse particular;

- A necessidade da existência em todas as empresas, de uma comissão de trabalhadores e de delegados sindicais para a defesa dos direitos e legítimos interesses dos trabalhadores;

- Uma metodologia socialista como forma de estruturar o País e que conduza os trabalhadores ao exercício democrático do poder;

- A necessidade urgente de uma formação técnica e profissional que conduza os trabalhadores à prática da autogestão.

 

B - Defesa dos Legítimos Direitos e Interesses

 

Tendo em conta o consignado na Constituição, a defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores não deve ser tomada como forma abstracta mas sim incidir sobre aspectos concretos.

 

Por isso o sindicato deve ter em conta:

 

  1. a) O direito inalienável ao trabalho como meio natural de vida;

 

  1. b) O direito à estabilidade de emprego não admitindo despedimentos sem justa causa;

 

  1. c) O direito a um salário justo que lhe permita bem como à sua família uma vida decente e digna, defendendo o princípio de trabalho igual salário igual.

 

  1. d) Direito às condições de trabalho que garantam a dignidade e realização pessoal do trabalhador;

 

  1. e) Direito ao exercício do controlo de gestão das empresas pelas comissões de trabalhadores;

 

  1. f) Direito à inserção das forças representativas dos trabalhadores, nos organismos que determinam as directivas da política social e económica do país;

 

  1. a) Direito à formação cultural, técnica, profissional e sindical de forma a que os trabalhadores possam capazmente intervir como agentes económicos e homens políticos na construção do socialismo.

 

C - Cooperação Solidariedade entre todos os Trabalhadores

 

A unidade e coesão dos trabalhadores traduz-se na prática da solidariedade, numa luta sindical própria, nem só económica nem só política, mas sim uma luta constante e de intervenção a todos os níveis, económico social político, de forma a desenvolver a cooperação entre a grande massa dos trabalhadores que visa a construção do Socialismo e ao mesmo tempo tendo em conta a reintegração na acção sindical, de todos aqueles que praticando o absentismo, ou cultivando comodismo, estão objectivamente a contribuir para a reorganização e recuperação capitalistas.

 

Esta solidariedade tem o sentido da socialização, entendida aqui como a tendência natural que os homens têm para se unirem, em ordem a resolver problemas que ultrapassam a capacidade individual e que só colectivamente conseguem atingir.

Compreendendo também que muitas vezes a solução dos problemas ultrapassa as fronteiras do país (caso multinacionais, adesão à CEE) deve desenvolver-se a cooperação e solidariedade internacionais numa perspectiva global, criando por outro lado, as alianças e relações específicas como garantia de uma acção eficaz.

 

D - Relações com Organizações Políticas

 

Estando a acção sindical acima e para além da acção política partidária e não se confundindo com esta, as relações ou colaboração com organizações políticas serão conjunturais, mantendo o sindicato, em todo o momento, a sua autonomia e independência próprias.

 

Julgo ter dado uma perspectiva do Sindicato Democrático que considero possível e desejável no nosso País.

 

Ora vejamos: este sindicalismo que o enquadre é o sindicalismo praticado nos países da Europa Ocidental e duma forma organizativa mais objectiva, nos países do Mercado Comum pois basta dizer que existe uma organização que engloba todos os sindicatos democráticos, que militam nos países da CEE, que é a Confederação Europeia dos Sindicatos.

 

Parece-me oportuno referir aqui o esforço que o Governo tem desenvolvido em ordem ao ingresso na CEE o que de facto acontece mais tarde ou mais cedo, colocando vários problemas aos trabalhadores portugueses, tanto a nível nacional como internacional.

 

Nesta ordem de pensamento útil abordar que o ingresso na CEE terá um tríplice objectivo; integração económica, social e política, o que torna inevitável que os sindicatos democráticos se organizem como corrente sindical que tenha como objectivo a instauração duma democracia social e económica que sirva de interlocutor ao Governo, pois uma decisão destas empenha não só o Governo como todos os trabalhadores portugueses.

 

É esta análise que me leva a defender para já, que todos os sindicatos que andam à deriva (que não estão dentro nem fora da C.G.T.P./I.N.) se devem organizar, não para combater ou destruir, o que não é de combater nem de destruir, mas para que se possa fazer sindicalismo a sério e para que, repito, o patronato e o Governo encontrem a classe trabalhadora toda organizada e disposta a construir em Portugal uma sociedade socialista onde o exercício democrático do poder pelos trabalhadores seja um dia uma realidade, como prevê a Constituição.

por Alfredo Morgado do I.F.S.T.

fonte: págs. 15-16, n.º 32, Nova Série JULHO / AGOSTO / SETEMBRO / 77, Boletim do Sindicato dos Bancários do Norte, A Nortada

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