DA JANELA E, Reforma Agrária (1977)
a falta da reforma agrária e a situação difícil em que vivem, com dificuldades para encontrar trabal
DA JANELA E

Resumo:
O texto é um relato de uma conversa entre quatro trabalhadores vinicultores, Raul, Carlos, Abílio e Zé Pedro, na região do Douro. Eles discutem sobre a falta da reforma agrária e a situação difícil em que vivem, com dificuldades para encontrar trabalho e subsistência. Eles criticam a política governamental e a falta de apoio aos pequenos lavradores e trabalhadores assalariados. Além disso, eles falam sobre as dificuldades para aceder a subsídios, assistência médica e educação na região. O texto também destaca a falta de investimentos na infraestrutura da região e a priorização das grandes empresas urbanas em detrimento das áreas rurais.
Texto completo:
Num determinado dia do mês de Outubro deste ano e tendo como palco a região duriense entretive-me durante alguns momentos a ouvir 4 Trabalhadores vinicultores precisamente quando estes cumpriam mais um dia de trabalho na época das vindimas.
Seriam 11 horas quando se concluiu a «4ª vez» e já só faltavam sete para o dia.
Despejado o cesto, trouxa ao ombro, carapuço pendurado o Raul de 56 anos tinha direito a uma reconfortante pausa de 5 minutos, para dosear o esforço e aguentar sem desfalecimento o resto da jorna. Todavia a sua missão era outra. Confrontado com o facto de na terra não haver suficiente mão-de-obra (já que os movimentos revolucionários das cidades não se solidarizam com os durienses) viu-se na emergência de suprir a falta de um homem; com pouca força, mas cheio de coragem e determinação. For então que, nesse lapso de tem po entre o despejar de um e a recepção de outro cesto o bom Raul, sem cultura livresca para além da Instrução primária tal como os demais começou por dizer:
- Mas quem se atreverá, neste país à deriva, de negar legitimidade à aspiração dos Trabalhadores desta região, quer trabalhem por sua ou por conta de outrém, de serem considerados cidadãos portugueses de parte inteira.
Oh, homem, nascemos na lama, e nela havemos de morrer! disse o Salvador. Ganhou fôlego o Raul para, de seguida voltar com esta:
- Não, meu amigo ou o abandono a que votaram os desprotegidos desta região atinge o seu limite ou o nosso suor ao longo dos 365 dias transforma-se no rejeitar firme de uma situação a que os responsáveis viram as costas.
- Se calhar você quer práqui a «Reforma Agrária»? interveio o Carlos
- Não troces Carlos. Nós precisávamos efectivamente de uma autêntica Reforma Agrária para esta região demarcada do Douro. Feita por indivíduos tecnicamente capazes, tendo em conta números reais e que a todos nós conviesse e convencesse Não é preciso uma Reforma Agrária apenas defendida pelos políticos, mas sim uma transformação profunda desta situação feita connosco para bem do país
Vê-se a sangria de «braços válidos» que emigrou para França, Bélgica, Luxemburgo e restantes países da Europa, que deixou apenas aqui meia dúzia de velhos e alguns rapazes que por aqui andam até qualquer dia.
Repara na dificuldade que os sócios da Cooperativa ainda sentem quer pelos atrasos nas liquidações das «novidades» já colhidas há 2 anos, quer em financiamentos para instalações indispensáveis, a taxas de juro favoráveis que demonstrassem o interesse dos governantes pelo sacrifício que pequenos lavradores como eu e trabalhadores assalariados como vós aqui suportamos dia-a-dia.
- Mas veja o Raul, que o Abílio Ranhau tem 70 anos toda a vida trabalhou na vinha para sustento dos seus 8 filhos toda a vida viveu em dificuldades e agora, porque não descontou 5 anos para a Casa do Povo não recebe um «chavo» da Previdência e mesmo sem mulher e com os filhos em Lisboa, anda aí como um farrapo cheio de reumatismo com fome que a todos nós mete dó.
Ora a Reforma Agrária devia ter em conta antes de tudo, estes casos. Porque o que mais interessa aos Trabalhadores não é o plano da Reforma Agrária, mas sim a prática que tivesse em conta os desfavorecidos desta zona abandonada. Não acha que devia ser assim, Raul? opinou o Zé Pedro.
- Ah, mas esqueceste-te de outra coisa. Então os subsídios por doença para as verdadeiras «baixas»? A assistência médica a pessoas de lugares distantes da Casa do Povo mais de 10 km? Sim que para se trabalhar com rendimentos devíamos ter a certeza de que a nossa saúde estava «okay»! Isto também era urgente não acham? Concluiu.
- Pois é amigos tudo isso e muito mais é que dá razão ao nosso direito de não aguentarmos o abandono actual por muito tempo. Vejam vocês que os caminhos apesar de estreitos, por sermos aldeia, são lamacentos porque as águas selvagens deterioram as paredes das vinhas e mesmo das casas de habitação. Só agora se vê possibilidade de termos algumas lâmpadas acesas durante a noite para bem comum, porque de outro modo não podíamos sair de casa durante a noite. Tem escola e com fontenário sem água, caminhos estreitos e quase intransitáveis, pagamentos atrasados nas Cooperativas e ser apenas fruto da teimosia dos lavradores a manutenção do cooperativismo não vos parece que são muitas coisas juntas de pouco custo que a nós faz muita falta? disse o Raul.
Entretanto novo cesto de 60 kg de uvas cai nas costas destes 4 homens que encosta acima, vão arrastando o «stock» suficiente para encher dois contentores de 6 000 kg de uvas, tal é a colheita do pequeno lavrador. Sr. Raul, da qual vai tirar o seu sustento depois das necessárias despesas para vingar a «novidade» durante todo o ano.
E quantas vezes o míldio, as chuvas torrenciais e os ventos roubam o pouco julgado muito bom deixando assim o lavrador sem meios para autosustentação da sua casa. Que seguro de colheitas existe? Que fomento agrário?
É fácil pois, concluir o panorama económico-social da região duriense.
Numa fase da nossa História em que as transformações económicas geram esquemas diferentes nos níveis de vida dos povos, são as regiões isoladas das grandes cidades as que mais traumatizadas se encontram 3 anos e meio depois do 25 de Abril de 74.
Aos órgãos municipais são dadas verbas tardiamente e a conta gotas.
Entretanto empresas inviáveis das cinturas industriais e ainda intervencionadas, imprensa estatizada só acessível aos grandes centros e (apenas) Cooperativas e UCPs do Alentejo consomem milhões de contos que só se conseguem com os empréstimos externos, ajudas várias e aumentos de Impostos directos e indirectos.
Como Trabalhador bancário tinha o dever de escrever estas linhas. De contar o que ouvi entre Trabalhadores, da minha terra, no nosso pais.
Num jornal de Trabalhadores é mister denunciar a realidade vivida fora do Porto, onde muitos de nós nascemos.
Quantas regiões terão os mesmos problemas? E quantos Trabalhadores se encontram assim desprotegidos? Será justo? Meditem os colegas.
Jerónimo Pereira sócio 10238
fonte: pág. 4, n.º 33, Nova Série OUTUBRO / NOVEMBRO / DEZEMBRO / 77, Boletim do Sindicato dos Bancários do Norte, A Nortada
